Outro texto que não sabia onde colocar, esse realmente tocou...
Fonte:
http://ricardodabo.blog.terra.com.br/nada_de_oracoes
Quem é o tolo?
Nas famílias abastadas, rezam os órfãos pelo melhor bocado da herança.
Nas choças miseráveis, rezam os apostadores pelo prêmio da loteria.
Nas camadas emergentes, rezam as dondocas por uma notinha na coluna social.
No quarto dos empregados, rezam as domésticas por um bom marido.
Nas alcovas desalentadas, rezam os machos pela ereção de outrora.
Em todo lugar, há piedosas orações em mercê de alguma graça do Senhor.
Enquanto isso, os jornais noticiam os horrores de sempre:
De fome morrem anualmente dois milhões de crianças.
De malária, febre amarela e Aids padece um continente inteiro.
Intermináveis guerras esfrangalham o mundo todo.
Membros são mutilados, arrasadas são aldeias e cidades.
Furacões, vendavais e maremotos fazem milhões de desabrigados.
E claro! Crianças são violentadas por pais na calada da noite.
Uma, duas, vinte, duzentas, mil, quinhentas mil...
Já não precisamos de um Marco Pólo para saber notícias de outras paragens.
Os desbravadores de ontem foram substituídos pela moderna tecnologia.
Entre os informes de uma frivolidade e outra,
Entre as revelações bombásticas de segredos domésticos
E as picuinhas rumorosas de celebridades transitórias,
Ainda há tempo para exibir os dramas perpétuos de um mundo aflito.
Ninguém hoje ignora o que é o mundo e a quantas ele anda.
A televisão domina os lares, jornais e revistam abarrotam as bancas.
Quando um crente invoca Deus para pedir favores, assalta-me a dúvida insolúvel:
Quem é o tolo?
Os gananciosos que querem Deus promovendo riqueza enquanto famintos são negligenciados,
Ou o Deus benévolo que negligencia famintos para promover a riqueza dos gananciosos?
Quem é o tolo?
Os encalhados que fazem Deus providenciar a alma gêmea enquanto a terra agoniza,
Ou o Deus benévolo que deixa agonizar a terra para providenciar a alma gêmea dos encalhados?
A oração sempre coloca um tolo no meio da história.
Se Deus é benévolo, justo e sábio, sobre os gananciosos têm prioridade os famintos,
À frente dos encalhados vem a terra agonizante.
Se estou errado, então não é benévolo, nem justo e sábio o Deus que apregoam.
Se certo estou, então o tolo é mesmo o crente,
Que não contente em ser tolo, blasfemo também é.
Só pode rezar quem no topo está da hierarquia dos infortúnios.
Um único desgraçado pode rezar sem enxovalhar Deus.
E esse miserável nem sequer sabe que é o escolhido,
Pois embora todos gritem como campeões do infortúnio,
Todos presumem que abaixo de si há sempre mais um.
Os demais, quando oram, apenas blasfemam.
Afirmam que Deus não sabe ordenar as coisas conforme seu grau de importância,
Não sabe discernir entre o que é prioritário e o que é preterível,
Antepõe o que deve vir depois, pospõe o que deve vir antes.
E não digam que são insondáveis os desígnios de Deus.
Que lógica há em se omitir na fome para a riqueza promover?
A anteposição do preterível ao prioritário é injustificável,
Sobretudo quando, em função da escolha, inocentes padecem.
A lógica do bom raciocínio uma pergunta impõe:
Se muito insignificantes somos para sondar os desígnios de Deus,
Quem muito importante é para saber que Deus desígnios tem?
E se o desígnio de Deus é não ter desígnio nenhum para nós?
E se Deus é o criador cósmico do laissez-faire?
E se esta norma inscreveu nas tabuletas do universo:
“O homem construirá seus planos e será senhor do seu destino”?