Monólogo apresentado num Acampamento de Carnaval:
O Monólogo de um Comediante Profissional
Bom... Meu nome é Bunyan, e sou um comediante profissional (Se é que isto existe!). E também sou evangélico (Por favor, sem trocadilhos!). Sabe, já tentei ser um comediante gospel, mas a concorrência é desleal. Não sei o porquê de eu escolher esta profissão; só sei que não dá dinheiro. Eu deveria ter feito uma faculdade - Faria bem à minha profissão atual. Poderia ter feito Comunicação Social, Letras, sei lá, Enfermagem?
Bom, a questão é que já tentei muitas vezes ir à Universidade. Dizem que se aprende muitas coisas lá - Beber é uma delas. Sabe, me deparei com alguns universitários e, sinceramente, não senti nenhum pouco de inveja. Aliás, sinto-me orgulhoso de ser um palhaço. Por que será que eles se vestem como neohippies? Aquelas saias rodadas, rendadas, chinelas, colares e pulseiras feitas por maconheiros em feirinhas do litoral sul de São Paulo.
Sabe, acho que não fiz faculdade também porque sou cheio de dúvidas. Uma vez, ao prestar vestibular, fiquei entre Engenharia Elétrica e Teologia. Isto mesmo, Teologia. Talvez você não acredite, mas tenho vocação para ser pastor. E está no sangue - Meu bisavô era pastor, meu pai é pastor, tenho cinco tios pastores, e lá em casa tem um cachorro que também é pastor. O nome dele é Edir. Se vocês quiserem doar resto de comida, ração, osso, não tem problema, meu cachorro não rejeita nada. Esses dias eu o peguei no canil negociando casinha no céu por um pedaço de bife.
Mas ainda não quero ser pastor, não. O problema de ser pastor é que se você quiser ser um pastor de verdade, não vai ganhar dinheiro.
Deveria ter feito Engenharia. Mas acabei fazendo o técnico. Tem um amigo meu que fez um curso de Tecnologia. A diferença básica entre um engenheiro, um tecnólogo e um técnico, é o tempo em que se fica desempregado. Um engenheiro fica mais tempo.
Ainda não entendi este curso de Tecnologia - Não sei se é pra recolocar um engenheiro frustrado no mercado de trabalho, se é pra graduar um técnico, ou pra fazer um vagabundo estudar. Tipo: "Qual curso vou fazer? Qual é o mais rápido e que você estuda menos? Obrigado, vou fazer Tecnologia."
O curso técnico de eletrônica que fiz foi muito proveitoso pra mim, abriu-me muitas portas. Lembro que, após ter concluído o curso, fui trabalhar de officeboy. Trabalhei numa empresa terceirizada do jornal A Gazeta Mercantil de São Paulo. Trabalhei por oito meses lá (Acho que é o tempo máximo que o sindicato permite a alguém trabalhar numa empresa como aquela). Já falei que a empresa era terceirizada? É muito ruim ser terceirizado - Você é meio que recriminado. No refeitório você vai se sentar na rodinha dos funcionários da empresa majoritária e famosa e logo ouve "Sai daí, terceirizado!"
O problema de se trabalhar numa empresa terceirizada é que você não é registrado na maior e mais famosa. Mas dá "pra pagar uma de que trabalha em empresa grande", quando se é terceirizado. Você revê aquele amigo que estudou com você. Conversa vai, conversa vem. "E aí, tá trabalhando onde?", "Naquela empresa grande e famosa". "Legal. Parabéns cara, você merece!" Aí aparece um amigo da onça: "Mas só que é terceirizado!" Você sai pra conhecer aquela garota, e ela te pergunta: "Você trabalha onde? Numa empresa grande? Sério? Só não vale dizer que é terceirizado (Risos)".
Mas foram bons tempos lá na Gazeta Mercantil. Digo, na terceirizada. Naquela época a Gazeta Mercantil estava falindo e, enquanto os funcionários dela tinham seus salários atrasados, nós terceirizados recebíamos em dia. Toda hora vinha um funcionário papear com a gente da terceirizada. Era um momento único.
Já trabalhei sem receber, também. Pra pagar as contas era como num sorteio - Você jogava tudo ao alto e a conta que ficasse na sua mão você pagava. Trabalhei também num lavarápido. Muito legal. Não sei se o curso técnico me ajudou lá, só sei que nunca levei um choque na bateria do carro de cliente.
No final das contas, virei um comediante. E, de certa forma, sinto-me um pregador do século XXI quando entretenho a plateia e recebo o meu cachê no final do dia. Também sinto-me um engenheiro quando fico sem fazer nada. Ah, e como um universitário quando rio sozinho (Sem o efeito da maconha, obviamente).