sem contar os problemas jurídicos que a "joelhogia" de alguns discípulos do I. Branham causa:
São Paulo, domingo, 27 de abril de 2008
Fiéis de igreja evangélica doam bens e constroem condomínio
Adeptos da Tabernáculo Vitória erguem comunidade em forma de águia com 250 chalés
Famílias deixaram cidades capixabas e mineiras rumo a Ecoporanga (ES); elas crêem no retorno de Cristo e que o fim dos tempos está próximo
CÍNTIA ACAYABA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM ECOPORANGA (ES)
À margem de uma estrada no norte do Espírito Santo, um condomínio em construção no meio do nada chama a atenção dos moradores de Ecoporanga (328 km de Vitória). Os lotes, porém, não estão à venda. Para viver ali, é preciso pagar outro preço: vender bens, deixar parentes, construir a própria casa e, sobretudo, acreditar que o fim dos tempos está próximo.
São as condições impostas pela evangélica Igreja Tabernáculo Vitória, fundada em 1985, que acredita no retorno de Cristo, anunciado por fenômenos como terremotos e o aquecimento global.
Das 163 famílias de fiéis da igreja, 160 deixaram cidades capixabas e mineiras rumo a Ecoporanga. Enquanto o condomínio Recanto das Águias não fica pronto, levam a vida em alojamentos precários, de madeira compensada, com separação entre homens e mulheres.
O líder do grupo é o pastor Inereu Lopes, 57, que justifica a obra pelo fim da "desigualdade entre os fiéis" e como modo de "fugir da violência de Vitória".
Mas nem todos pensam como ele. Um "ex-fiel" tenta reaver na Justiça a guarda das filhas, que foram com a mãe para Ecoporanga.
A Folha visitou as obras na terça-feira. No terreno de 850 mil m2 (ou 120 campos de futebol), doado por uma família de fiéis, encontrou Idmílson Martins, 25, ao lado de um trator. Usando um boné com a frase "Cristo literalmente conosco", ele levou a reportagem ao administrador da igreja, Israel Martins, 27. O ex-analista de pesquisas autorizou a entrada, mas só após duas horas de explicações sobre o condomínio.
O futuro lar dos fiéis da Tabernáculo Vitória é cercado por um muro que, com o alicerce, atinge 22 metros de altura. O local terá 250 chalés de 58 m2 cada, divididos em sete blocos com nomes religiosos e que devem abrigar 582 pessoas.
A obra prevê ainda um refeitório conjunto. Pelo projeto, em formato de cabeça de águia, a casa do pastor ficará no bico da ave, afastada das outras e ao lado do templo da igreja.
Pastor
Falar com o líder da igreja não é fácil. Somente quando a reportagem ia embora, Lopes apareceu. Com frases pontuadas, diz que o objetivo do condomínio é reviver a "igreja primitiva", que rejeita a acumulação de capital. Conta que, no culto em que se definiu a venda dos bens e a vida em comunidade, houve destruição de cartões de crédito e cheques.
Quase 20 anos após o fim do Muro de Berlim, ele quer reviver os ideais do comunismo. "Mas o comunismo é política, e na política há corrupção. Aqui não haverá corrupção. As famílias são fiscais de tudo o que é feito e questionam os custos."
Para todos
A vida em comunidade custou aos fiéis o abandono de empregos e parentes. Tudo o que fazem, dizem, é para todos. Também não há salários.
Os primeiros a chegar ao canteiro de obras, em agosto, foram os homens. Oriundos de Minas ou do Espírito Santo, não precisavam de experiência em construção civil. Ervino Kister, 58, por exemplo, diz entender só de jardinagem. Ex-funcionário de uma empresa de fertilizantes, afirma gostar da nova rotina, apesar de "parte da família" ter ficado em Vitória.
A maioria dos homens se amontoa em beliches num alojamento dentro da construção. Perto das camas, há violões e camisas de futebol. Fumo e álcool são proibidos. As mulheres ficam a seis km dali, em alojamento de compensado cercado por arame farpado. Eles as visitam apenas aos domingos -sexo só depois do casamento.
Segundo uma mulher da administração e outra da cozinha, que se identificaram apenas como Natalina e Paula, as refeições têm frutas, legumes e carnes todos os dias. Chocolates "só de vez em quando".
Quase não se vê dinheiro na comunidade. À exceção de quem recebe aposentadoria ou pensão, ou tem algo guardado, os fiéis têm que pedir dinheiro à administração da igreja até para tomar sorvete.
Depois da conclusão do condomínio, os fiéis planejam construir um complexo com posto de combustíveis, pousada e empresas para "gerar renda para as famílias", segundo Martins. Enquanto isso, todos vivem com o dinheiro das doações e plantam café e arroz para venda e sustento próprio. Entre uma e outra enxadada anunciam: terremotos, como o que houve na terça-feira, são sinais de que o fim está próximo.
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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2704200801.htm]
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São Paulo, domingo, 27 de abril de 2008
Expulso, "ex-fiel" vai à Justiça por filhas
Casamento de 14 anos termina após homem discordar da venda de bens; ex-mulher e três filhas decidem seguir pastor
Taxista diz que filho vendeu tudo o que tinha e entregou R$ 240 mil à igreja; imóvel de pastor está à venda por R$ 300 mil em Vitória
DA AGÊNCIA FOLHA, EM VITÓRIA
Como quase toda igreja, a Tabernáculo Vitória também tem seus dissidentes. Um ex-fiel da igreja, que pediu para não ser identificado, se disse "desesperado" pela decisão da mulher e das três filhas de sair de casa e seguir o pastor Inereu.
Ele tenta a guarda das meninas com requerimento na 5ª Vara da Família de Vitória.
"Minha mulher, que ainda amo, me deixou. Ela está cega, acreditando nesse pastor que fez pressão para as pessoas venderem seus bens." Ele afirmou ter sido o único a se opor à decisão de venda dos bens, durante culto em maio de 2007. Foi expulso da igreja e viu seu casamento de 14 anos acabar.
Ele freqüentou a igreja por 17 anos. Disse que os antigos "irmãos" venderam bens a preços inferiores aos de mercado,
enquanto o pastor Inereu não se desfaz de seus imóveis -a propriedade do líder em Vitória está à venda por R$ 300 mil.
O taxista João Fantine, 55, é pai do primeiro fiel, de 35 anos, a entregar dinheiro à igreja -R$ 240 mil. "Ele vendeu um ponto de táxi, uma casa, um carro. Esse pastor deve ter feito lavagem cerebral nele."
A ex-fiel Sarah Zucon, 32, disse que o irmão pediu que vendesse tudo para ir com ele a Ecoporanga. Quando disse não, o irmão rompeu com ela.
O Ministério Público apurou as condições de vida na antiga sede da igreja, em Vitória, atualmente à venda por R$ 4 milhões. Chegou a entrar no local, onde há 50 quitinetes, com mandado judicial, e constatou que não havia problemas. Também investigou a freqüência escolar de alunos da comunidade -não haviam estudado em 2006 e em 2007.
"Recebemos denúncias de que a igreja estava privando o direito da criança de convivência comunitária. Para mim, havia, em Vitória, cerceamento de liberdade. Quando a pessoa está reclusa, está sujeita ao risco de alienação", disse a promotora Zumira Bowen. A apuração em Vitória se encerrou quando a igreja deixou a cidade.
Em Ecoporanga, o Ministério Público e o Conselho Tutelar apuraram denúncia sobre baixa freqüência das crianças na escola e constataram que elas são assíduas. O promotor Sandro Sgrancio afirmou que vai acompanhar a situação das crianças e o andamento do projeto do condomínio para verificar eventual apropriação indébita de bens. (CA)
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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2704200803.htm]
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São Paulo, domingo, 27 de abril de 2008
Pastor afirma que doações são espontâneas
DA AGÊNCIA FOLHA, EM ECOPORANGA
O pastor Inereu Lopes, 57, líder da Igreja Tabernáculo Vitória, diz que todas as doações já recebidas pela comunidade foram espontâneas e que todos os fiéis que participam da obra do condomínio estão lá por vontade própria.
"Decidimos dar um basta nas diferenças econômicas entre os fiéis. Repartir com todos o que tínhamos. Sei que deveríamos fazer para todos os necessitados. Mas pelo menos iniciamos na nossa pequena comunidade", afirma Lopes em um vídeo intitulado "Desabafo", disponível no site da igreja.
"A assembléia geral [dos fiéis] decidiu fazer a renúncia [dos bens materiais]."
De acordo com Lopes, o dinheiro arrecadado com a venda dos bens é aplicado na obra do condomínio e na compra de suprimentos para a comunidade.
"Não queremos mais nos misturar com parentes incrédulos, que não respeitam a nossa fé. Não freqüentamos festas ou lugares incompatíveis com a nossa crença, mesmo que sejam casas de parentes. Se vamos às ruas, é para comprar algo e logo regressamos para a nossa casa", diz.
Profeta
A crença da igreja baseia-se na necessidade de um profeta para os dias de hoje. Os fiéis crêem que Deus não fala diretamente com a população, a não ser por um profeta, e acreditam na volta de Jesus Cristo.
O profeta da Tabernáculo é William Branham, que nasceu em 1909, nos Estados Unidos. Aos sete anos, dizem os textos da igreja, ouviu a voz de Deus. Converteu-se aos 14. Durante um batismo de 500 pessoas, quando tinha 22, ouviu do espaço uma voz que o conclamava a ser profeta. Morreu em 24 de dezembro de 1965, aos 56 anos. Deixou gravados 1.200 sermões. (CA)
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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2704200804.htm ]
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São Paulo, domingo, 27 de abril de 2008
Frase
"Mas o comunismo é política, e na política há corrupção. Aqui não haverá corrupção. As famílias são fiscais de tudo o que é feito e questionam os custos."
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INEREU LOPES, 57
líder da Igreja Tabernáculo Vitória
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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidi ... 200802.htm ]