Resenha – As Grandes Questões Sobre a Fé

Por rap em 1 agosto 2008 na categoria Literatura

Quando se olha para a capa desse livro geralmente a primeira coisa que vem à cabeça é o quão clichê é pensar em questões filosóficas usando a religião para determinar perguntas que provavelmente nunca serão respondidas. No entanto, seu subtítulo fala uma verdade: ‘Respostas às perguntas que você sempre fez, mas ninguém respondeu‘. Leiam bem: respostas. Jonathan Hill faz um belo trabalho de pesquisa, mostrando diversas respostas sobre um mesmo assunto, dando base para que tanto haja discordância como uma total concordância em um mesmo questionamento; é se aprofundar e logo após escolher. O mais importante, além do trabalho de pesquisa, foi a forma despretensiosa pela qual o autor não se posicionou perante nenhuma das divergentes posições.

Costumo antes de ler um livro olhar seu índice, geralmente é o que vai determinar o interesse na leitura. Sendo assim, devido a grande gama de assuntos, preferi resenhar As grandes questões sobre a fé através de tópicos correspondentes aos seus capítulos:

1. Quem é Deus, afinal? – Nada melhor que começar uma discussão geral sobre fé, através da tentativa de busca da definição da natureza divina. Deus espiritual; conhecido ou desconhecido; transcendente e imanente; sofredor; perto ou longe; todas essas facetas sendo mostradas, assim como a herança judaica e grega que formaram a visão de Deus para os cristãos na atualidade. A quantidade de citações é grande, não se trata de uma análise profunda, mas de uma direção para o aprofundamento em algum linha de raciocínio que o leitor quiser ir.

2. Será que temos alguma boa razão para acreditar em Deus? – A velha discussão sobre a existência ou não de um ser divino e superior é abordada com grande clareza, mostrando as diversas maneiras da tentativa de prova ao longo da história. Inclusive o livro de Anthony Flew: Um ateu garante: Deus existe é também citado nas discussões. Quero dar destaque à apresentação do argumento de Kant sobre a lei moral interior que dificilmente é abordado em livros que tentam provar a existência de Deus.

3. Como é possível acreditar em Deus com tanto sofrimento no mundo? – O nível da pesquisa atinge um nível que dificilmente se encontra em cristãos, o argumento do teólogo muçulmano al-Ghazali é mostrado de forma clara e democrática para uma das muitas tentativas de resposta à questão que religiosos atuais geralmente ignoram.

4. A fé religiosa pode ser racional? – A briga travada atualmente entre fé e razão é mostrada de forma histórica através do Evidencialismo e do Fideísmo. É interessante como o autor conseguiu mostrar visões de pessoas conhecidas no meio filosófico sobre tal questão, Locke, Lewis, Kant e Kierkegaard são citados, os dois primeiros como adeptos do evidencialismo (fé somente com razão) e os últimos como fideístas (a fé não pode ser racional).

5. A ciência evoluiu. Isso significa o fim da religião? – Segundo religiosos de várias vertentes um dos grandes motivos para o desinteresse na religião é a ascensão da ciência como posto maior no pensamento. Hill prova de forma histórica uma inverdade. A visão de que a religião e a ciência tratam sobre juízos diferenciados é a tese e idéia básica desse capítulo.

6. A liberdade não passa de ilusão? – Calvinismo e Arminianismo, as duas visões em evidência nos dias atuais são mostradas como linhas de pensamento montadas ao longo de séculos. O interessante nesse trabalho de pesquisa foi a expansão de visões além dessas duas tão aceitas e muito ortodoxas. A Teologia Relacional e o difícil Molinismo são mostrados de forma clara e totalmente imparcial.

7. Será que existe essa história de vida após a morte? – Platão e teólogos judeus, é nessa batalha a principal discordância quanto às sutilidades da alma, sobre sua imortalidade ou não. Uma combinação das duas visões foi o que aconteceu com o Cristianismo, no entanto, as dúvidas sobre o lugar para onde pessoas irão após a morte ainda são muitas, as diferentes idéias são apresentadas, todas com influência prática sobre a vida cotidiana.

8. O que acontece com as pessoas de outras religiões? – Exclusivismo com Agostinho e Lutero, Inclusivismo não assumido com Orígenes, Inclusivismo assumido com Justino e o Pluralismo com os cristãos indianos e Buda. Quatro maneiras de enxergar e quatro maneiras diferentes do que vem a ser o respeito com a opinião alheia. Uma discussão que muitos consideram inútil como essa sobre salvação, é-nos mostrada historicamente como a responsável por várias mortes e catástrofes humanas.

9. O que significa viver bem? – Moralidade mais uma vez em voga, assim como a motivação dos atos. É possível um ateu ser moralista? A pergunta que é usada como base para justificativa da existência de Deus é destrinchada através de buscas pelo mais conveniente à lógica. Um capítulo com essa questão metafísica de forma bem explicada.

10. Qual é o objetivo final da vida? – Uma das poucas perguntas sem respostas. Nada melhor que o término do livro com uma dúvida que não teve muito avanço ao longo do processo filosófico cristão.

Recomendo esse livro pelo simples fato de conseguir ser imparcial e incitar através de pesquisa histórica a busca pelo aprofundamento de pensamentos que estão engessados e inertes na sociedade atual.

1. Pag. 35 e 36

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