Mercado, Igreja e Música

Por Dan em 9 dezembro 2006 na categoria Opinião

A um tempo, tive a oportunidade de ser chamado para fazer parte da revista eletrônica Pensamentos Cativos, escrevendo, principalmente, sobre música. Comecei lá um estudo sobre Mercado, Igreja e Música, que ainda não terminei (devo escrever mais umas 2 ou 3 partes), mas gostaria de compartilhar o primeiro texto aqui com vocês.

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Pretendo iniciar uma série de textos com pensamentos sobre a música e sua posição na igreja hoje. São pensamentos que podem estar incorretos em alguns aspectos, ou então na maneira de apresentação das mesmas, mas creio que o coração deste pensamento esta correto, devido às minhas constantes conversas com outras pessoas, tanto do meio cristão, como de fora dele.

Gostaria de dizer que as constatações aqui apresentadas são resultantes de observações e não existe nenhuma pesquisa qualitativa que as confirme, por isso, sinta-se livre para discordar o quanto quiser!

Neste primeiro momento, gostaria de abordar o mercado em si, independente do produto vendido.

Sabemos que os cristãos, principalmente os evangélicos, constituem uma fatia gorda do mercado geral, e tem seu próprio nicho, o mercado cristão. Voltados para este nicho, temos os mais variados tipos de produtos: cd’s, livros, marcadores de página, cartões, bíblias, vestuários, brinquedos, óleos, xampus, chaveiros, pesos de papel, souvenires e muito mais.

O mercado cristão (e aqui eu colocaria evangélico) é muito interessante, pois: 1º. É uma fatia específica muito numerosa no Brasil atualmente; 2º. Uma fatia numerosa explicitamente consumista, ou seja, o mercado cristão movimenta milhares de reais por ano, sendo um dos segmentos que mais cresce no Brasil.

Dito essas coisas, o grande problema não são apenas os inúmeros oportunistas no meio cristão, mas a suposta união que existe entre o mercado e a igreja, e a natureza desse relacionamento.

A verdade é que muitas igrejas se tornaram verdadeiros mercados e este parece ser um mal exclusivo do evangélico de hoje. O cristianismo é a única “religião” que possui um seguimento musical só seu. Existem muito mais lojas de artigos evangélicos do que de qualquer outra religião, justamente pela grande proliferação do mercado, e ao invés de olhar para os possíveis pontos positivos de tudo isso, gostaria de apontar alguns pontos negativos.

Tal comportamento gera um tipo de gueto, uma segmentação da vida que, muito possivelmente, não é saudável ao cristão. Tal segmentação gera diversos males aos consumidores como:

Oportunismo
Por que precisamos de um xampu com base de extrato do óleo de Gileade? São diversos os exemplos de pessoas que entram na dança para tirar um proveito único e exclusivamente comercial.

Baixa Qualidade
Aliado ao oportunismo, temos exemplos de produtos de péssima qualidade, vendidos sob uma propaganda “cristã” apelativa que leva as pessoas ao consumo indefinido. É muito mais eficaz usar um xampu comum, mas como aquele outro é “cristão”, as pessoas acabam comprando. Embora o quadro tenha mudado em alguns segmentos, como o editorial, temos uma gama de produtos que não atendem aos requisitos mínimos de qualidade. São camisetas de péssimo design, cd’s com produção medonha, contando inclusive com plágio de artistas internacionais, xampus que não fazem espuma e óleos de unção que não resolvem os problemas!

Não quero, com isto, dizer que é errado comercializar estes produtos (embora seja questionável), mas me pergunto: o que os impede de competir com outros produtos similares do mercado geral? Tenho a leve impressão de que, no mercado cristão, recebemos alguns dos piores produtos, que não sobreviveriam uma semana no mercado secular, sofrendo as críticas mais severas.

Às vezes as pessoas ficam bravas se criticamos um produto cristão, afinal, é uma possível “fonte de benção”, mas não estamos falando de teologia ou vida cristã e sim de mercado, coisa que envolve o meu e o seu dinheiro. Sendo assim, creio que tenho todo o direito de criticar quando necessário! Também não sei se estamos falando sobre benção na sua vida, pois isso não é compatível com algum tipo de cobrança em dinheiro. Benção é Graça! Quando aplicamos um dinheiro determinado em algo, creio que já não falamos em benção, mas sim de eficiência.

Ignorância
O mercado cristão também incentiva, em certos níveis, a ignorância das pessoas, uma vez que tudo o que está ao seu redor é ignorado em favor daquilo que o mercado cristão nos supre de informação, seja através dos seus livros e cd’s, ou de suas camisetas e marcadores de página. Achamos que a banda X é o que há de mais revolucionário na música, sendo que os artistas seculares já passaram por lá há séculos. Ou então que a camiseta Y tem um design totalmente inovador, sendo que não passa de um plágio de algum grafismo dum site de concursos de camisetas. Se a única referência que temos é o próprio mercado cristão, nos mantemos num nível muito alto de mediocridade intelectual e de repertório.

Preconceito
Tudo isso, visto de fora, gera uma posição de preconceito para com a “religião” cristã, uma vez que não existe muito tolerância com o exterior. O mercado cristão contribui para que o próprio cristão se feche numa rede de produtos, serviços e comportamentos “seguros”, impedindo a penetração daquilo que vem de fora, bem como a sua ação com o exterior. Esta intolerância é rapidamente tachada pelas pessoas como atitude ignorante e acaba por estereotipar a “pessoa cristã”.

Enquanto o mercado se preocupa com dinheiro e números, o cristianismo se preocupa com pessoas! Na minha mente, a união das palavras “mercado cristão” é um tanto quanto incompatível, e creio que na cabeça de Jesus também era: “E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração, mas vós a tendes convertido em covil de ladrões”, disse Jesus ao expulsar os comerciantes de dentro do templo de Jerusalém (Mt. 12:1-17). Acontece hoje, justamente o que acontecia naquele tempo. As pessoas vendiam pombas aos pobres como alternativa de oferenda a Deus. Hoje as pessoas nos vendem outras coisas, como bênçãos de Deus, sendo que podemos obtê-las pela Sua graça gratuitamente.

Não sou contra a criação de produtos com um pensamento cristão, ou concebido por cristãos, mas sou contra a utilização da igreja e de seus pensamentos como meio de comercialização dos mesmos. Somente quando nos livrarmos das amarras do oportunismo que este mercado proporciona, seremos capazes de criar produtos realmente relevantes, não apenas para os cristãos, mas para toda e qualquer pessoa em todos os sentidos e níveis.

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8 Comments

  • Essa crítica tem como pontos-chave o preconceito,oportunismo,baixa qualidade e ignorância presentes no mercado “gospel”.Porém, esses atributos não são exclusivos deste nicho de mercado,mas estão presentes no mercado como um todo,a percepção negativa q se concentra pq há um nicho de mercado como foco.O mercado “secular” é até mais ganancioso na comercialização de cds…um exemplo é o testify do P.O.D. q tava 38 em média pela Atlantic e 25 em média pela BV eu acho……é óbvio q devemos requisitar qualidade e originalidade,porém essa mudança deve vir duma exigência moral e intelectual dos próprios cristãos,não pela dissolução da separação de produtos, já que os conteúdos devem ser mt diferentes……

  • “Porém, esses atributos não são exclusivos deste nicho de mercado,mas estão presentes no mercado como um todo,a percepção negativa q se concentra pq há um nicho de mercado como foco.O mercado “secular” é até mais ganancioso na comercialização de cds…um exemplo é o testify do P.O.D. q tava 38 em média pela Atlantic e 25 em média pela BV eu acho…”

    Um erro não justifica o outro… Uma coisa é você ser “enganado” (digamos assim) por motivos psicológicos ou emocionais. Outra coisa é vc se utilizar de uma propaganda abusiva (o for apelo ao nome do próprio Deus e à sua igreja) para promover e vender algo. Nos próximos textos vou tentar ser mais específico com relação à musica, buscando significar bem aquilo que é ministério e aquilo que é arte, e tentar conceitualizar ambos comportamentos de acordo com este pensamento… Aguardem!

  • Propaganda abusiva e enganosa são conceitos técnico-jurídicos q devem ser empregados assim e ao serem presenciados,é obrigação moral do cidadão denunciar p/os órgãos de defesa do consumidor como procon.Acho que vc pode ter um ponto quanto a empregar o nome de Deus em vão,porém isso é um pecado indiviual que é projetado no mercado por pessoas que devem ser especificadas,isso não é um problema de haver uma lojinha c/ produtos evangélicos por si.

  • É isso ae. Vão aparecer muitos criticando vc por falar essa verdade, mas CORAGEM, irmão. Uma hora a ficha vai cair na cabeça das pessoas

  • @TiagoSousa, eu não entendi mto bem seu ultimo comentário…

    @Tiago, tomara que caia, hehehe…

  • Quero dizer q se alguém vir propaganda abusiva e/ou enganosa deve denunciar p/o procon,delegacia do consumidor etc….e que concordo c/ vc no ponto de tomar o nome de Deus em vão p/ vender algo,mas as pessoas q fazem isso devem ser especificadas,não se deve generalizar e culpar a existência do mercado “gospel” por si.

  • @TiagoSouza: Vc não acha que o fato de existir um Mercado Gospel já é o suficiente pra isso? Não estou falando só de música aqui, pq ainda não entrei neste assunto especificamente. Você não acha que ter uma premissa “cristã” pra vender algo já não é abuso? Talvez as pessoas não racionalizem os seus atos desta forma, onde tudo é feito de forma impensada, mas o apelo existe…

  • No meu ponto de vista existe uma linha muito fina entre aquilo que glorifica o nome de Deus e aquilo que apenas existe para nos agradar. Sempre haverá oportunistas em todos os mercados, porém cabe ao cristão estar atento aquilo que irá edificar a sua vida cristã e aquilo que é apenas consumo e entretenimento.

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