Crentes & Famosos – Edição nº7

Por Sarah em 13 janeiro 2009 na categoria Crentes e Famosos

Conto

A bela entorpecida

Por: Marcio Fontes

Com a fina chuva molhando o seu rosto e o gélido frio da madrugada cortando sua delicada pele, Renata via a sua vida passar como num filme nas trêmulas pálpebras dos olhos. O asfalto já estava encharcado e todo o seu corpo doía. Dona Celsa, mãe de Renata, casara-se com apenas quinze anos, obrigada pelo pai por estar grávida. Foi morar com Seu Raimundo, doze anos mais velho que ela, em um fétido e minúsculo barraco à beira de um córrego em uma favela carioca. Perdeu seu primeiro filho logo no terceiro mês de gestação e não conseguiu mais engravidar.

Finalmente, quinze anos após se casar e ainda morando no mesmo barraco, Dona Celsa conseguiu engravidar e ter sua primeira e única filha que ganhou o nome de Renata, que significa “renascida”. O nome foi sugerido pelo pai de santo do centro de umbanda que Dona Celsa e Seu Raimundo freqüentavam desde que se casaram, e segundo suas palavras foi a salvação que buscava para sua vida. Como desgraça pouca é bobagem, esse mesmo pai de santo avisou que antes dos 20 anos Renata seria levada pela entidade à qual ela fora consagrada.

Sem se preocupar com isso, Dona Celsa levou uma vida normal e sempre ouvia de sua mãe, Dona Jemima, que deveria levar a garota na Igreja Pentecostal da qual fazia parte para que essa maldição fosse quebrada. Conselho este que não era ouvido por Dona Celsa, pois acreditava que os Exus e Pombas Giras nada de mal fariam à sua única filha. Mesmo sem o consentimento de Celsa, Dona Jemima sempre levava Renata para a Escola Bíblica Dominical. Suas idas à igreja duraram apenas o tempo que a menina era controlada. Com quinze anos, seus longos cachos avermelhados despertavam a libido de muitos homens da favela, em especial um: João Henrique, mais conhecido como Joãozinho Caveira, respeitado traficante da área. Não demorou muito para Renata ser seduzida por uma vida de dinheiro fácil. Dona Celsa, às voltas com o alcoolismo de seu marido, não dispensava muita atenção para sua filha, e pouco se importava com as noites que Renata passava fora de casa cheirando cocaína na companhia de Joãozinho.

A garota linda de cabelos cacheados e olhos cor de mel aos poucos perdeu seu ar de menina, afundando-se na drogas e prostituindo seu corpo apenas pelo prazer de andar em carros importados
e freqüentar motéis luxuosos. Dona Jemima tentou avisar a filha sobre o caminho que a neta seguia e ficou surpresa com a resposta: “Que ela siga o que ela quiser…”. De fato, Renata seguiu o caminho que quis seguir e, aos 19 anos, com uma beleza fora da sua realidade, lá estava ela, estendida no asfalto molhado pela chuva, tendo convulsões em decorrência do uso excessivo de cocaína, abandonada pelos amigos e pelo namorado, que a viu em estado de overdose e apenas falou: ” É uma vaca que não agüenta p**** nenhuma, deixa ela aí que amanhã alguém vem buscar o corpo…”

Nos seus últimos suspiros Renata lembrou-se das mensagens da Escola Bíblica Dominical, de um
cara chamado Jesus, que morreu na cruz para nos livrar dos nossos pecados. Foi o ultimo suspiro de
Renata.

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