Crentes & Famosos - Edição nº 12

Por Sarah em 30 outubro 2008 na categoria Crentes e Famosos

Artigo

Catolicismo x Protestantismo no Brasil
O Cristo dos católicos e dos protestantes é o mesmo?

Por: Suzana Rebeca

O tópico aberto por nosso usuário helsouz para debater sobre a banda Jars of Clay é uma prova de que, às vezes, fugir do tema principal pode descambar em uma discussão muito mais interessante que a original. Um tópico cuja proposta inicial era saber se a banda em questão é protestante ou carismática resultou em um debate sobre catolicismo e protestantismo no Brasil, um tema sobremaneira difícil para se fazer uma abordagem histórica e religiosa uma vez que o assunto é deveras extenso e os rumos da História de ambas as doutrinas estão bastante entrelaçados, chegando a se confundir por diversas vezes.

O catolicismo foi, oficialmente, a religião estatal até 1889, quando a República rompeu com o antigo acordo de Padroado pelo qual Igreja e Estado estavam ligados. Antes disso, porém, a História nos mostra que não havia, no Brasil, uma consciência de Igreja enquanto Igreja, mas sim enquanto sociedade. Ou seja, a religião era inerente à população. O Pe. Antonio Vieira afirmou diversas vezes em seus sermões que cada português era um missionário, que deveria pregar e viver a Palavra.(1) Para além do Brasil, a reforma luterana expôs a necessidade de mudança dentro da doutrina católica e acelerou a quebra de muitas tradições dentro da mesma. Alheio às pregações luteranas, o catolicismo brasileiro permaneceu – nos primeiros séculos – extremamente tradicional e conservador.

Nesse contexto, mostra-nos Émile G. Léonard (2) que ficaria bastante difícil, senão impossível, haver uma reforma puramente brasileira, uma vez que: “O estabelecimento no Brasil de um catolicismo reformado, que conservasse velhos hábitos religiosos e velhas instituições eclesiásticas e tudo o que não se mostrasse incompatível com as Sagradas Escrituras, teria necessitado da adesão [...] de uma grande parte do clero católico, do apoio da política imperial e das boas graças dos meios intelectuais e progressistas. Ora, estas três condições não existiam.” Assim, o protestantismo no Brasil tem a ver com a vinda de diferentes missões estrangeiras.

Algumas dessas primeiras missões são a Presbiteriana (1867), a Metodista Episcopal (1870) e a Batista (1881). Não havia um interesse inicial em se fazer uma reforma religiosa no Brasil. Esses primeiros missionários esperavam a conversão espontânea ao Evangelho por meio da pregação doutrinal, apenas. Vale salientar que não consideravam, no geral, a população brasileira como cristã, apesar do grande número de católicos.

Os missionários protestantes não haviam, inicialmente, ultrapassado os limites da pura evangelização. Não atacavam o catolicismo, que por sua vez já havia advertido os fiéis a respeito das novas doutrinas.

No decorrer da História, o Catolicismo e o Protestantismo brasileiros passaram por diversas mudanças em suas estruturas, pregações e fundamentos.

De grande importância na história da Igreja Católica vem a ser o movimento da Teologia da Libertação. Mais envolvido pelas questões sociais, pregava a solidariedade aos necessitados como o “real cumprimento do Evangelho”, que aliado à autoconsciência de si enquanto agente de transformação resultaria na libertação em Cristo.(3) O movimento de Renovação Carismática, por sua vez, resgatou antigos valores, conceitos e tradições esquecidos pela Teologia da Libertação. A prática da reza com o terço e a devoção à Maria são alguns destes elementos regatados.

O protestantismo brasileiro, por outro lado, sofreu grande mudança com o neopentecostalismo, que pode ser historicamente localizado a partir dos anos cinqüenta e que está alicerçado nos “sinais e prodígios” e prega grande aproximação e intimidade com Deus.

Ambas as doutrinas passaram por tantas mudanças em sua “fórmula original” e geraram tantas “subdoutrinas” que chegam por vezes a confundir. Pe. Marcelo Rossi canta músicas de artistas protestantes e os mesmos, por sua vez, são chamados para participar de eventos católicos e seculares. Algo que, de forma alguma, recriminamos.

A História de católicos e protestantes no Brasil e no mundo está repleta de “sangue, ciúme e violência”. Se discordarmos da Inquisição católica, da mesma forma deveríamos discordar dos Escravagistas protestantes do Sul dos Estados Unidos. E os maus exemplos dentro da história do protestantismo não param por aí, nosso querido Anderson Silva nos lembrou dos acontecimentos na Irlanda e Alemanha(4).

No tópico, o usuário T83 escreveu: “muitas vezes acho que encontrarei muitos amigos católicos no céu, quando lá estivermos, e notarei a falta de alguns fervorosos evangélicos que comigo caminham na igreja onde congrego.” O Evangelho é bem mais simples do que o que nós muitas vezes pregamos. Em várias passagens bíblicas Deus nos alerta sobre a importância do unicamente “crer e seguir”. Em Atos 10:43b está escrito que “todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados”. O fundamentalismo e a intolerância religiosa são muito mais nocivos do que uma reza, um terço, um “rosto do Cristo dos católicos”.

Então, se você consegue adorar a Deus, independentemente da religião professada – ou não – pelo cantor, adore. E deixe de lado os rótulos e os preconceitos.

(1) Para saber mais, leia Tradicionalismo Católico em Pernambuco, de Tiago Adão Lara. Apesar do estudo se restringir ao estado de Pernambuco, os primeiros capítulos do livro são dedicados à compreensão do processo de estabelecimento do Catolicismo no Brasil como um todo.

(2) O Protestantismo Brasileiro, JUERP, 1981.

(3) Libertação estendida em três dimensões: a econômica/social, a pessoal e a libertação do pecado. Mais em:

(4) A guerra civil entre protestantes e católicos na Irlanda e o apoio dos protestantes à Hitler.

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Leia mais:

22 Comments

  • Ah eh! Mais uma pra coleção… Só queria ter a 1,2,3,4,5,6,7,8…

  • =)

    baixem a versão em PDF também, galera!

  • abner, as edições antigas serão postadas futuramente. é só aguardar. ;)

  • deu trabalho pra postar essa edição rsrsrs, eita códigos complicados esses, mas ainda bem que deu, desculpa a falta de formatação correta no link do e-book Renato.

  • Mal pude acreditar qdo vi meu nome citado no artigo da Crentes & Famosos!
    Deixando de lado o deslumbre, extremamente rico e proveitoso esse artigo!
    Parabéns Suzana!

  • q emoção!!!
    vou baixar!!

  • Renato Cavallera outubro 30th, 2008 12:31 pm

    Nossa, mas rápido que o Chapolin colorado!

    E Andynhow, boa, veio!

  • [...] Aqui está o link para o artigo: http://www.dotgospel.com/blog/crentes-famosos-edicao-n%c2%ba-12/4/ [...]

  • os artigos da Suzana são realmente muito bons… =)

  • Ah, Sarah e Tiago, obrigada, de coração!

    Nossa, Bru, muito legal, me identifiquei totalmente…heueh! NUNCA tive coragem de ir no Kamikase…Moooorro de medo…
    A juu é linda, neh? Não mudou nadinha…Sempre gostei daquela foto…rs!

  • gostei de tudo, mas quero deixar “parabéns” especial para a Bruna. Apesar de eu sempre me arriscar nos brinquedos, na vida, faço ao contrário, prefiro ficar no chão com os 2 pés firmes. Mas nem sempre isso é bom msm.

  • Renato Cavallera outubro 31st, 2008 2:58 pm

    … enquanto isso nos bastidores da podosfera secular brazuca, a Crentes & Famosos #12 está gerando discussões…

  • puxa vida!!! ficou show parabens pessoal….e obrigado por nos dar uma revista cada vez melhor.

  • mtooo bom!
    adorei as entrevistas sobre a infância =)

    renato, como é q é?

  • nossa, adorei o texto da Anne…

    parabéns, gente, a revista tá ótima (como sempre!)

  • Oiii… adorei o texto da Anne…

    adorei a revista, como sempre… parabéns…

    senti falta do crentes e citados…

    beijos

  • Cada vez mais a CeF está ficando melhor e com a cara do Dot. Não comentei aqui sobre as outras edições, mas mesmo assim tenho acompanhado este trabalho. Parabéns mesmo para o dot!
    E obrigada pelos comentários do meu texto na seção de Crônicas…é muito bom mesmo estar participando de alguma forma da CeF.

  • é, renato, ilumine para nós seu comentário, rs.

    dani, infelizmente ficou mesmo sem o crentes e citados essa edição, mas ele voltará. (puxe a orelha do rafael, haha)

  • ow, ficou mó legal… interessante que nas entrevistas, houve uma boa semelhança entre as opiniões sobre a infância dos nossos dias.

  • pra todo mundo ver q eu era loiro quando criança! rs

  • legal
    vou ver o pdf agora

  • Prezada Suzana Rebeca,

    Bom seria que você pequisasse mais a história e não fosse tão simplista quando afirma abaixo em seu post;

    “o apoio dos protestantes à Hitler.”

    Eu conheço e vivi essa época…

    Pesquise esse site abaixo e pesquise também quem foi Martin Niemöller em outros sites;

    http://torahviva.wordpress.com/2009/06/16/as-igrejas-alems-e-o-estado-nazista/

    “Em 1933, um pequeno grupo de pastores protestantes formaram a Liga de Emergência dos Pastores. Fundada por Martin Niemöller, a liga assumiu uma posição contra a dominação nazista da igreja. Em 1934, seus líderes fundaram a Igreja Confessional, que representava uma minoria de todos os pastores protestantes na Alemanha. Sua ideologia era resistir à coerção nazista e expor a falta de moral do movimento cristão alemão pró-nazista.”

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