A Bíblia e o erotismo

Por Luciana em 15 julho 2008 na categoria Opinião

Cântico dos Cânticos celebra paixão entre namorados com imagens fortes e sensuais. Texto mal menciona Deus, mas passou a ser interpretado como símbolo do amor divino.

“O mundo inteiro só foi criado, por assim dizer, por causa do dia em que o Cântico dos Cânticos seria dado a ele. Pois todas as Escrituras são santas, mas o Cântico dos Cânticos é o Santo dos Santos.” A frase teria sido dita pelo sábio judeu Rabi Akivá, por volta do ano 100 d.C., e explicaria porque a Bíblia aceita por cristãos e judeus de hoje abriga esse livrinho misterioso. Os oito capítulos do Cântico dos Cânticos estão cheios de sensualidade e erotismo, descrições apaixonadas do corpo de dois jovens amantes, insinuações do ato sexual — e uma única menção, que soa quase como nota de rodapé, ao nome de Deus. Como explicar, então, seu status nas Sagradas Escrituras judaico-cristãs?

Se a sensibilidade moderna estranha a presença de uma coleção de poemas eróticos no meio da Bíblia, a defesa do Cântico dos Cânticos (expressão hebraica que significa algo como “o maior dos cânticos” ou “o mais belo dos cânticos”) pelo Rabi Akivá sugere que o próprio povo judaico teve dificuldade para aceitar a obra. “Houve muitos debates sobre a canonicidade dele [ou seja, sobre sua inclusão no cânon, ou conjunto oficial, da Bíblia]. No fim das contas, os rabinos acabam aceitando o livro, que é o último a ser incluído no cânon hebraico, mas proíbem seu uso como canções seculares, em salões de banquetes”, conta Rita de Cácia Ló, professora do curso de extensão em teologia da Universidade São Francisco (SP).

Apesar da inclusão tardia no conjunto das Escrituras, há indícios de que o Cântico tem uma história antiga e complicada. As versões que conhecemos do livro trazem uma espécie de rubrica, dizendo que o livro é “o Cântico dos Cânticos de Salomão”, rei de Israel que viveu por volta do ano 950 a.C., mas a maioria dos estudiosos modernos concorda que essa atribuição é fictícia.

“Na Antigüidade era comum que alguns textos fossem atribuídos a personagens famosos, seja por representar uma continuidade dos seus ensinamentos ou por fazer alusão a momentos marcantes de sua vida ou da lenda gerada por eles”, explica Humberto Maiztegui Gonçalves, doutor em teologia bíblica e clérigo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil cuja tese versou sobre o Cântico. Como Salomão, segundo a tradição israelita, teria amado inúmeras mulheres e tido grande gosto pela literatura, seu nome teria sido “atraído” para o poema. “Além disso, Salomão nasceu das loucuras de amor entre o rei Davi e Betsabéia, que era uma mulher casada, o que talvez também possa explicar essa idéia”, lembra Rita Ló.

 Reino do Norte

Apesar da referência aparentemente fictícia ao sábio Salomão, há no texto uma rápida menção à cidade de Tirza, que foi capital do Reino de Israel, ou Reino do Norte, uma das duas monarquias nas quais teria se dividido o território israelita após a morte de Salomão, por volta de 900 a.C. O interessante é que Tirza foi capital durante um brevíssimo período de tempo, logo após a separação dos reinos, o que pode indicar que ao menos parte do poema remonta a quase nove séculos antes de Cristo. No entanto, também há sinais, no hebraico do Cântico, que o texto foi retrabalhado após a destruição de Jerusalém pelos babilônios (século 6 a.C.), ou até perto do período grego, uns três séculos mais tarde.

As teorias sobre a origem do livro são muitas. “Ele poderia ter sido composto de uma só vez, por um único autor, ou o que temos hoje é a composição de vários poemas de amor que ‘menestréis’ ambulantes cantavam nos casamentos das aldeias que percorriam”, afirma Cássio Murilo Dias da Silva, doutor em exegese bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma e autor do livro “Leia a Bíblia como Literatura”.

Com ou sem a participação de menestréis no surgimento do Cântico, um dos pontos surpreendentes no texto é a ênfase dada à voz feminina: em boa parte do texto, quem fala é uma jovem apaixonada e decidida, que procura seu amado pelas ruas da cidade, trama subterfúgios para fazer com que ele entre em seu quarto e anseia por encontrá-lo em meio à natureza, aos bosques e vinhedos, com descrições que evocam a natureza da terra de Israel na Antigüidade.

“Como a macieira entre as árvores dos bosques/Assim é meu amado entre os moços/À sombra de quem eu tanto desejara me sentei/E seu fruto é doce ao meu paladar/Ele me introduziu na sua adega/E a sua bandeira sobre mim é Amor!”, declama a jovem. Em nenhum outro texto bíblico os pensamentos e desejos da mulher ocupam um lugar de tamanho destaque. Aliás, a impressão que o texto passa é que se trata de um casal de jovens namorados, e não que os dois sejam oficialmente casados.

“Para quem tenha uma visão da Bíblia com a masculinidade como centro, isso pode chegar a ser até escandaloso. Os homens participaram, no começo, como complemento”, diz Humberto Gonçalves. Para o especialista anglicano, é possível dizer que as mulheres são as principais autoras da coleção de poemas do Cântico. “A pergunta é se sua autoria foi oral ou se chegaram a fixar a poesia por escrito”, afirma ele. De fato, era raro que uma mulher do Oriente Médio antigo soubesse ler e escrever.

 Amor humano, amor divino

Outra característica marcante do texto são os chamados “wasfs”, longas comparações poéticas em que cada parte do corpo da amada ou do amado é comparada a um objeto, animal ou lugar. Trata-se de uma fórmula literária que também aparece na poesia amorosa árabe e do antigo Egito. Nesses trechos é que a sensualidade do poema fica mais explícita. “Tua fronte por trás do véu/É como uma romã aberta/Teu pescoço é como a Torre de Davi/Da qual pendem mil escudos/Teus seios são como dois filhotes gêmeos de gazela/Pastando entre os lírios”, diz o amado em certo trecho.

“Sem dúvida, o sentido primeiro [do poema] é o amor humano, com tudo o que ele tem de paixão, crise, atração, desejo etc.”, afirma Cássio da Silva. Por que, então, a inclusão do texto sensual no cânon sagrado? A explicação mais provável, sugerem os especialistas, é o fato de que a separação entre amor humano e amor divino que existe na cultura moderna era bem menos rígida na sociedade dos antigos israelitas. “No mundo antigo, tudo, inclusive as técnicas artesanais, o amor, a guerra e até os acordos políticos e diplomáticos tinham a ver com divindades”, lembra Humberto Gonçalves.

“Não se pode separar a dimensão religiosa e mística do amor humano, porque, em larga escala, é o mesmo sentimento que Deus tem em relação a nós. O amor de duas pessoas reflete o amor com que Deus nos ama. Isso sem falar que o Cântico foi composto numa sociedade bem menos puritana e hipócrita do que a nossa”, acrescenta Silva.

Rita Ló lembra que existia uma antiga tradição na qual o amor de Deus por seu povo escolhido de Israel era visto, de forma metafórica, como o casamento de dois seres humanos, o que impulsionaria essa interpretação mística do Cântico dos Cânticos. Por outro lado, Gonçalves diz que a sensualidade do poema pode refletir uma espiritualidade pagã que influenciou os israelitas nas épocas mais antigas. Afinal, os povos vizinhos, e provavelmente os próprios israelitas, adoravam deusas em rituais de fertilidade, o que explicaria em parte a importância feminina no Cântico. Nesse caso, a sexualidade quase explícita também teria um papel espiritual para os primeiros autores do texto.     

 Vida longa e próspera

De qualquer maneira, a própria sobrevivência do Cântico em épocas posteriores pode significar que ele teve um papel de “resistência” contra os aspectos mais machistas do judaísmo, diz Ló. “Após o exílio na Babilônia, houve um período de fechamento e o crescimento de uma visão muito negativa sobre o corpo da mulher, visto como fonte de impureza. O livro contraria isso”, afirma a especialista. 

De certa forma, a argumentação do Rabi Akivá ajudou a superar essa tensão, segundo Cássio da Silva. “Afinal, o amor humano vale ou não vale por si mesmo? É ou não é expressão do amor divino? Os rabinos responderam afirmativamente a essas duas perguntas. Tanto que, no calendário judaico, o Cântico dos Cânticos é lido na festa da Páscoa [a mais importante do judaísmo]. E aí entra a mística: o sentimento do amado pela amada e vice-versa ajuda a compreender o amor de Javé por seu povo, Israel, e
nesse amor Javé desce do céu para tirar seu amado povo do Egito e dar-lhe a vida e a felicidade. De Israel, espera-se que corresponda ao amor de Javé e lhe seja fiel.”

O cristianismo atualizou essa visão ao substituir “Javé” e “Israel” por “Cristo” e “Igreja” na equação: o amor do casal no poema virou também o símbolo do amor de Cristo por sua Igreja, vista como sua “noiva”. Dessa forma, a influência do Cântico teve vida longa e acabou se estendendo ao último livro do Novo Testamento, o Apocalipse, na qual a metáfora praticamente conclui a Bíblia cristã.

Texto de Reinaldo José Lopes, do G1.

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19 Comments

  • Talvez esta interpretação possa ser mudada se levarmos em consideração pontos-de-vista diferentes. Acredito que há diversas traduções, assim como há diversos ministérios, com diferentes doutrinas.

    Abçs

  • cara, não concordo muito com as afirmações feitas não!

    Eu creio que o livro de Cantares foi incluído por mostrar como é que o amor ‘eros’ (que não tem nada a ver com o amor ‘ágape’) é algo dado por Deus ao homem.
    Deus quando deu a sexualidade ao homem, mesmo antes da queda, desejava que o homem aproveitasse os prazeres do sexo da melhor maneira possível, e o livro de Cantares demonstra essa pureza da relação sexual entre o homem e a mulher.

    Não creio que as expressões tenham conotação ou comparação com o amor Divino.
    o que se trata ali é relação sexual homem/mulher.

    Bração!!!

  • a bíblia sempre foi um mistério…mas nem por isso deixamos de acreditar no S. Poderoso, e isso é o que importa

  • Cada um tem uma interpretação…e vai por ai o Robson disse tudo

  • Eu particularmente não gosto da metáfora que aparenta ser forçada entre Cristo e a Igreja advinda do livro de Cânticos. Porque não considerar como um livro que fala sobre um amor saudável entre duas pessoas?

  • Nao consigo ver na biblia o livro sagrado de orientação que a maioria das pessoas vem,a biblia foi escrita por humanos nao por deus.

  • Como já comentei, reforçarei mais a partir de outros comentários.

    DEUS realmente fala sobre amor, porém o que é mostrado aqui só é fruto de emoções e perspectivas do autor. Cada um fala o quuiser e concorda também quem quer.

    Vale o que você achar certo!

  • Dario….a biblia foi escrita sim por homens, mas inspirada por Deus. Como os cinco livros escritos por Moises, foi Deus que falou para ele escrever e disse o que deveria por ali.

  • A malícia está na mente humana…

    …Esse tipo de assunto deve ser bem analisado antes de discutido pois são cheios de metáforas misturadas com fatos e isso confunde muitas pessoas…

    Eu particulamente não entendo sobre o assunto então vou deixar para os expert’s

    abraços
    e sucesso com teu blog

    http://gabriellacardoso19.blogspot.com/

  • Muito interessante^^
    Adorei essa postagem^^ Não sou cristão, mas mesmo assim acho bem interessante pelo fato de cada vez mais termos provas do tipo de “religião” tínhamos na época das tribos^^
    Adorei por inteiro, até pq me interesso por esse tipo de estudo^^

    Abraços^^

  • idolatria a um cântigo? Oo

    Lamentável!!! É triste saber que pessoas ainda conseguem dar credibilidade a uma coisa dessas! =/

    Adorei a publicação e o site!

  • Desconfio de muitas coisas escritas na bíblia. Não sou cristã, mas acredito que há uma ser superior que rege a todos nós. Mas a bíblia? Ela foi escrita por homens e supostamente usando as palavras de Deus. Enfim… Cada um com a sua religião e suas crenças. Coisas que não discuto: Futebol e religião.

  • Respeito muito e sei da importância memorável da bíblia, que não me surpreende em trazer (por que não?) aspectos afetivos das relações humanas, afinal seu conteúdo não é absolutamente divino, pois passou pelo filtro da escrita humana.

    Abraços

  • É um belo epitalâmio, ou “epithalamium’, como querem os latinos.
    Erotismo em altíssimo grau, o que confere à Bíblia algo mais humano, fundamentado no desejo.
    O que seria de nós sem ele?

  • Não sei se refletiria o amor divino, creio que apenas demonstra que o desejo e a sexualidade é natural e deve ser aproveitada por nós.

  • Acredito que o livro mostra um lado do amor mais humano, tirando a conotação de que sexo é pecaminoso e sim um ato que Deus deseja que o homem e a mulher tenham (desde que seja no casamento)…que ha sim amor entre homem e mulher e não somente procriação.

    Quanto aos comentarios sobre a biblia ser escrita por homens, na mais que a verdade, mas sempre inspirada por Deus, por isso creio que se está ali Cantares é pra mostrar que Deus deseja que o homem e a mulher se amem e se tornem um só, e ali é uma historia que prova isso, alem de termos outras como Esther, Rute e por ai vai.

  • Pessoal no mundo em que vivemos hoje muitas vezes faz tirar a nossa visão do real objetivo que nós temos que ter na vida, o cristão e a sexualidade, e as definições transcritas acima são opiniões de homens que assim como nós podem ser falhos, bem, pesso para que se lembrem sempre com carinho e com muita atenção que devemos buscar a Deus acima de todas as coisas e que através dessa busca as demais coisas vos serão acrecentadas.
    OBS: muito bonita as palavras da Luciana.

  • Concordo plenamente com a ultima opinião citada.

  • tudo que esta na “palavra de Deus” é puro so as pessoas que realmente não conhecem ou nunca tiveram uma experiencia pessoal com Deus acabam contorcendo tais coisas como essa Deus é amor e Ele aprova o sexo foi ele que criou claro entre o homem/mulher e ele não aprova a sensualidade pr isso que mts caem em tentação antes do casamento Deus fala pra nos sermos perfeito aos olhos dele como crianças que não tem malicia nenhuma e e puro de coração e espirito e de alma tudo que a palavra de Deus relata e a mais pura porque vem de Deus eu sou cristã e creio nisto Deus os abençoe

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